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O LOOK DA GORDA


Hoje, uma página do facebook que fala sobre moda postou a foto de uma mulher plus size  aparentemente muito bem resolvida, diga-se de passagem  que exibia suas fabulosas curvas em um vestido branco, colado e cheio de transparência, refutando todos os preocupados e sinceros "conselhos" dados à nós, gordas, pelo incrível e segregador mundo da moda.

Pra ser sincera, quando olhei a imagem, a primeira coisa que me veio à cabeça foi uma Kardashian: corpo generosamente curvilíneo, vestido grudado, postura segura e imponente. Estereótipos estão sempre impregnados. Depois, observei a sandália, cujo tom era um nude maravilhosamente coringa, acompanhada de uma bolsa em tons de azuis estonteantes. Por último, confesso, notei uma barriguinha. A pochete, tão temida e famigerada, estava lá. Mas diante de um mulherão daqueles, com cabelo e postura tão sensacionais, que teve a coragem de vestir uma peça que provavelmente seria julgada como imprópria pelos milhares de críticos e juízes do corpo alheio, e que, como se não bastasse o fato de ser dona de si, ainda era dona de um senso estético inquestionável, eu jamais deixaria que meu foco fosse a existência de gordura na barriga dela. Desculpa, mas eu optei por não ser fútil.

Eu não sei se a cartela de cores elegida por ela foi realmente a melhor escolha ou se a bolsa carteira combina de fato com o estilo do look porque nenhuma dessas convenções importam pra mim. Quando vi a foto, a única coisa que consegui enxergar foi uma mulher forte, totalmente satisfeita consigo mesma, que não estava nem aí pra existência daquela barriguinha. Ela é gorda, não é cega e com certeza notou a saliência que havia ali. E que bom que não deixou de usar uma peça que gostou, nem abriu mão de posar pra uma foto libertadora de look do dia só por causa de um pedacinho do seu corpo que ficou em evidência. Porque é isso que a barriga é, um pedaço da gente. Gente que tem sentimentos, preferências e todo direito do mundo de andar por aí como bem entender. Porém, diferente de mim, alguns comentários distribuíam repulsa totalmente de graça. Um deles dizia: "acho feio gordas que tem barriga assim com vestido colado... não rola não".

Minha querida, uma mulher que enfrenta todo dia a pressão por não pertencer a um padrão tido como adequado e que tem coragem suficiente pra mandar esse mesmo padrão pro espaço, com certeza está mais preocupada com o novo vestido branco e muito mais ousado que comprará na próxima ida ao shopping do que com seu pobre e vazio julgamento. Se você achou tão feio a ponto de ter que comentar e mostrar pro mundo a sua indignação, é muito fácil resolver: feche seus olhos ou role seu feed. O que não rola é o seu preconceito. Nós vivemos em um país livre. O Facebook, como toda rede social, permite que qualquer pessoa dê sua opinião – feliz ou infeliz – sobre qualquer assunto. Não há ditadura nem censura que te impeça de falar. Mas, pelo amor da empatia, filtre esse seu coraçãozinho. São por comentários como o seu que, todo santo dia, milhares de mulheres se escondem embaixo de três quilos de pano ou deixam de ir a praia curtir com a família. Você provavelmente acha que isso é desleixo ou preguiça, assim como a maioria das pessoas, que julga o próximo sem o conhecer. Mas, independente da verdade, o mundo está tão cruel por causa de pessoas como você, que optam por denegrir ao invés de estimular, que se julgam superiores por alguns quilos a menos. Você não tem culpa por ela ser gorda, mas essa pequenez, sim, é culpa sua.

As pessoas têm a péssima mania de pensar que gordas não têm bom senso. Ficam revoltadas quando as veem usando croppeds ou shorts que evidenciem suas coxas extremamente grossas. Lançam seu olhar de reprovação como se a pessoa tivesse o dever de saber que aquilo ali não está agradando os olhos de quem vê. Desculpa te decepcionar, mas você já pensou na hipótese de que talvez ela não esteja se vestindo para os outros? Talvez a falta de noção que você tanto julga não passe de um exercício diário de empoderamento para que, quem sabe assim, nós, gordas, soframos um pouco menos por causa de pessoas que se sentem no direito de julgar o que nós podemos ou não usar. Talvez a sua indignação esteja mascarando um comportamento feio que você alimentou e, consequentemente, apodreceu aí dentro do seu peito. Comportamento esse compartilhado por milhares de pessoas que ainda não aprenderam a importância de se colocar no lugar do outro, assim como aquelas que curtiram o seu comentário. Mulheres que falam de Deus, de amor, de feminismo, mas que não são capazes de enxergar sua própria intolerância.

Os corpos das gordas, dos magros, dos negros, dos pobres, não deviam te incomodar tanto assim. Esqueça o peso dos outros e foque na sua dieta: corte o seu preconceito e tome um detox pra alma. Assim, além de leve, você viverá mais feliz.
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