Desvarios

ONTEM FOI MEU ANIVERSÁRIO E EU CHOREI



Ontem foi meu aniversário e eu tô sem WhatsApp. Meu noivo me contou que um tio que eu gosto muito (e que é tão ríspido como eu) me mandou parabéns no grupo da família. Eu não tô falando com ele há um bom tempo. Nem com a minha mãe. Nem com a minha ex-melhor amiga. E, ao constatar isso, além de muitas outras coisas, eu chorei. E chorei mais ainda por querer tentar esconder que, sim, pessoas, apesar de ter meus motivos e não desmerecê-los, eu sinto falta de vocês e de muitos outros também, e odeio com todas as minhas forças ter me tornado esse alguém que acha o orgulho mais confortável do que as vossas companhias.

Chorei por que tenho tanta coisa guardada que está sendo quase impossível distribuir tudo isso em linhas. Publiquei esses dias na minha timeline - já prevendo a surra de tédio que meu dia seria - que você percebe que cresceu quando o fato de seu aniversário estar chegando não é capaz de te fazer esquecer os problemas nem de deixar seu dia melhor. E realmente tive razão: meu querido dia 26, esse ano você falhou.

Você percebe que seu aniversário deu errado quando ele cai numa segunda-feira, seis dias depois do término das suas férias. Quando você tenta ser fitness fritando o bife na grill e, por alguma razão do universo, ela resolve não ligar. Quando você abre o facebook e encontra 50 publicações na sua linha do tempo, sem nenhuma foto zoada com legenda especial. E aí você resolve conferir as lembranças, talvez pra se sentir menos vazia enquanto lê as publicações antigas.

Chorei por que, pela primeira vez na vida, passei meu aniversário praticamente sozinha. Dividi o único bife temperado que tinha na geladeira com o Bud, meu cachorro, que, também pela primeira vez, me deixou abraçá-lo sem rosnar. Acho que ele percebeu o que eu queria.

Tinha pão de hambúrguer no microondas mas eu troquei por um de aveia, por que ninguém te conta que, quando você cresce, você precisa se forçar a escolher entre comer carboidrato ou ganhar uma nova estria. E eu ficaria feliz se fizesse essas escolhas todos os dias por que essas nem são ruins, mas a verdade é que eu precisei olhar pro meu corpo e ver um mapa de bacias hidrográficas pra conseguir engolir a tal da linhaça dourada. E eu chorei de novo por não conseguir lembrar quando foi que eu me abandonei. 

Você percebe que cresceu e que, ao invés de ganhar, perdeu muito da vida, quando os velhos amigos ficaram no passado, junto com as memórias igualmente velhas. Apesar de não mais enxergar nessas pessoas o mesmo ombro amigo, algum pedaço do seu eu sente falta de quem você era quando estava com quem eles foram um dia. E minha intenção não é insinuar que se tornaram pessoas ruins... Elas só não são mais as mesmas. E tudo bem a gente sentir saudade, por que essa é a única opção que o passar do tempo nos deixa.

Depois de alguns anos, o Bob Esponja passa a te irritar e o Lula Molusco começa a fazer mais sentido. A bagunça no ônibus começa a te incomodar. Você aprende a obedecer sua avó e entende que é realmente importante colocar suas pernas pra cima no final do dia. Sua médica te receita vitamina C por que descobriu que seus ovários, assim como o resto do corpo, andam preguiçosos e isso é preocupante já que, agora, você precisa aprender a lidar com planos mais adultos, como, por exemplo, pôr um filho no mundo um dia.

Seu aniversário deixa de ser uma data comemorativa quando você finalmente entende que não falamos mais de presentes por que sempre foi sobre expectativas. Envelhecer não é uma fatalidade, mas as coisas que você deixa pra trás, sim. As tardes na sorveteria são interrompidas pela realidade estressante do trabalho - palavrinha que parecia novidade aos quinze anos e, hoje, é responsável por roubar sua sanidade. E todos os meses você entrega um combo contendo cento e sessenta horas da sua vida mais uma legião de neurônios do seu cérebro em troca de um salário bem dos baixos que já não é mais usado pra pagar festas e luxos: agora você paga boletos, compra terrenos e já se sente amiga íntima do famoso crediário.

Apesar das linhas finas já terem dado o ar da graça e de você já ter aprendido que creme anti-idade não custa caro à toa, você se depara com o momento mais difícil da sua juventude: entender que, para alcançar sonhos de adultos, você precisa agir como um. Nessa hora, você se questiona porque o conto do Peter Pan não virou um best-seller. Depois desse grandioso passo, você entende por que crescer é realmente uma droga: crianças não financiam casas, não trabalham o dia todo usando um jeans que aperta até o útero, nem tem a porra de um artigo científico pra entregar na semana do seu aniversário.

Elas tomam xarope de cereja enquanto nós, adultos, dissolvemos a droga do remédio de 500 mg na água pra ficar um pouco mais fácil de engolir. E, ah, se engolíssemos só remédios... Adultos são pessoas cansadas, como eu, que reclamam o tempo todo. E não ouse desmerecer os meus vinte e três anos dizendo que não sei nada sobre a vida, nem pense em caçoar da minha inocência dizendo: "você ainda não viu nada!". Por que, coleguinha, ontem foi meu aniversário. E eu chorei. Mas não foi por causa do escuro na hora do parabéns, até por que nem bolo teve. 

Eu chorei por que ser adulto dói.
E, quando aperta, a gente volta a ter doze anos.
A gente lembra que só queria colo...
Ou enrolar uns brigadeiros ao invés de marcar o exame de tireoide.

E juro que estava deprimida, carente, solitária, e que a minha única intenção era cagar pro mundo e mandar o otimismo ir tomar no rego... Até eu me lembrar de que a vida, meus amigos, é igualzinha ao meu cachorro. Você divide o único bife do almoço do seu aniversário com ele, e ele te agradece trepando com a sua perna. Mas, cinco minutos depois, você sente um focinho gelado dormindo em cima do seu pé inchado.
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